domingo, 29 de janeiro de 2017

2017 avançando e eu não atualizei o blog...

Depois da complementação do projeto Tordesilhas em 2 Rodas, o ano de 2016 foi bem fraco em termos de cicloviagem. Foram duas pequenas, sendo que a primeira foi...

Vencido pelo General Inverno!

Não sei se realmente Napoleão foi derrotado apenas pelo inverno, lá na Rússia ou se isso é folclore histórico, mas eu tive meu momento de inglória em função do frio.

No dia 15 de agosto eu chegava em Ribeirão Preto, na intenção de pedalar até Ilha Comprida, cerca de 600 kms. Saí de Ribeirão, voltei 20 kms na Anhanguera e fui visitar o amigo Edson Sorrentino, a quem ainda não conhecia pessoalmente, na cidade de Jaboticabal. Além de contar com a agradável hospitalidade do Edson e da Zilda, sua esposa, fiquei sabendo que Jardinópolis é uma cidade amiga dos ETs... Além de ser conhecida como a Terra da Manga. E seus moradores, como Boca-amarelas...

Conheci bastante a cidade, visitei os principais pontos de atração turística, incluindo a estação ferroviária (desativada) no distrito de Jurucê. Se fosse só por isso já teria valido a pena.
Montando a bike na rodoviária de Ribeirão Preto
 






O grande amigo Edson Sorrentino, a quem não conhecia pessoalmente. Sujeito nota 10.

Segui viagem no dia seguinte, tendo aumentado a bagagem com uma capa de chuva tipo poncho, presente do Edson, que iria utilizar mais à frente. O sol estava inclemente, mas havia previsão de alguma chuva pelo caminho, então sempre é bom se prevenir. Passei ao largo de Ribeirão Preto (ah, como é bom não entrar em cidade de grande porte!) e fiz a primeira escala em Cravinhos, cidade que já tinha visitado em 2015. Fiquei no mesmo hotel, à beira da rodovia, como convém a um cicloviajante, para não perder tempo pela manhã...

Em Cravinhos tomei conhecimento do Parque Estadual Vassununga, antes de chegar em Pirassununga, onde existe uma árvore enorme, que 10 homens não conseguem "abraçar"... Fiz uma parada por lá e fui conhecer essa atração, que se não fosse a indicação, jamais imaginaria a existência. Valeu muito a pena. Vale citar que no Parque encontrei-me com uma equipe da administração do Caminho da Fé; estavam acertando alguns caminhos novos pela região.


O amigo aí (esqueci seu nome, pena...) me falou sobre o Parque Vassununga...
 


Esse é o pessoal do Caminho da Fé.
Saindo do posto Graal na manhã seguinte, rumo a Limeira
 
Em Pirassununga teria que dormir, o que me deixava um tanto ansioso porque ali deveria estrear a barraca e montar acampamento pela primeira vez em viagens ciclísticas. Felizmente não chovia naquele dia, o que me deixava mais tranquilo. Parei no posto de abastecimento da rede Graal, com pouca esperança de conseguir autorização para dormir ali. O que se revelou falso, pois o gerente não colocou nenhuma dificuldade, concordando imediatamente, inclusive me sugeriu que montasse a barraca perto da borracharia, onde havia uma área coberta, tendo em vista que ameaçava chuva. Apesar do meu otimismo ao chegar, o tempo foi virando, via-se relâmpagos no horizonte, que felizmente ficaram por lá mesmo...

...o que foi uma grande um grande alívio, pois quando montei a barraca percebi que havia esquecido o sobreteto da mesma. Se chovesse, seria como dormir ao relento... A tal área coberta não passava de uma marquise, bem alta, que, em caso de chuva, me molharia bastante. Felizmente tive a brilhante ideia de usar a mala-bike estendida sobre a barraca, fazendo as vezes de sobreteto. Ufa! Tranquilo? Quem dera!!! O borracheiro trabalhou até lá pelas duas e meia. Ainda que um pouco afastado, o barulho chegava bem alto. Sorte minha que um dia todo pedalando dá um cansaço que supera qualquer incômodo. Pena que não registrei esses momentos em foto...

De qualquer maneira foi uma noite muito mal dormida. Aliado ao fato de estar sem o sobreteto, resolvi que em Limeira, a próxima parada, iria desfazer-me da barraca e seus complementos, enviando pelo Correios para casa.

Só que... em duas agências dos Correios que procurei não haviam embalagens do tamanho que eu necessitava e, orientado pelos atendentes, não consegui em supermercado ou lojas próximas. Assim, desisti de despachar e deixei a bagagem na casa da querida amiga Idê Vecchi, ficando de buscar quando desse. Esse "quando" será na próxima viagem, a partir de 07 de fevereiro...


Hotel barato, perto da estação rodoviária.

Gruta, ponto turístico, na Praça Toledo Barros
Teatro Vitória, na mesma praça
Minha amiga da adolescência, Idê e a neta Mélly.
Último olhar a Limeira



Matriz de Iracemápolis
 


De Limeira pedalei até Piracicaba, pegando a estrada errada e passando por Iracemápolis, que não estava nos planos. Mas que resultou em benefício, pois lá encontrei facilmente uma bicicletaria, onde pude dar uma boa regulada geral (freios e câmbio), além de resolver uma problema que me incomodava, que era de o pneu ficar raspando no quadro, pois eu não conseguia regular o aperto da blocagem da roda traseira...

Pouco depois cheguei em Piracicaba, aquela onde o rio vai jogar água pra fora... Quando morei em Limeira, em 1967-69, não conheci Piracicaba, apesar de ficar tão perto, coisa de 30 kms. É que naquele tempo eu viajava muito pelo interior do estado por trem e a linha que passava por Limeira (da saudosa Companhia Paulista), não passava em Piracicaba. Adorei a cidade!!! Visitei alguns pontos turísticos, como o mirante à beira do rio, a Rua do Porto, uma área de atrações gastronômicas baseadas em peixe, principalmente. Fica nas imediações do Engenho Central, uma das atrações top da cidade. Realmente vale muito a pena uma visita...

No dia seguinte, indo embora, passei pela Estação Ferroviária, hoje restaurada e parte de um conjunto enorme de lazer, com pistas para pedestrianismo, ciclovias, museu ferroviário e um bocado de coisa mais. Em dúvida sobre o caminho para chegar lá, informei-me com o Heitor, que vinha de uma participação da corrida pedestre ocorrida naquele dia (era um domingo). Ficamos amigos, trocamos contatos e tal...

Passei ainda pelo Mercado Municipal para comer um pastel, altamente recomendado pelo meu amigo Waldson Antigão, morador em Sampa e que viveu em Piracicaba na adolescência...

Mirante sobre o Rio Piracicaba. Visto de baixo...
...e de cima.
 




Este é o Heitor.
 


O pastel no Mercado Municipal
Saí de Piracicaba lá pelas 12 horas. A partir da metade do caminho até Tietê, o tempo mudou radicalmente, esfriando e chovendo, pegando o ciclista da terra do calor totalmente desprevenido. Como não esperava por essa mudança, tinha levada roupas para suportar frio moderado, abri o bico, lógico! Além do imprevisto da chuva, quase chegando em Tietê, fui perseguido por uns bons 300 m por dois cachorros de uma empresa à margem da rodovia. Tipo aquelas cenas de desenho na TV... Felizmente estava em trecho de descida, o que me fez ganhar a corrida com eles na pedalada.

Cheguei em Tietê sob chuva forte. Errei o caminho, voltei uns 2 kms até chegar na Estação Rodoviária. Não sem antes levar um tombo generoso... Cheguei por volta das 19 horas, já escuro. Decidi encerrar a viagem ali mesmo, pegando um ônibus para Avaré, onde deixei a bike e tudo na casa de minha irmã e voltei para casa com o rabo entre as pernas... Detalhe: quando saí de Tietê, às 23:30 h, o termômetro marcava 13 graus. Cheguei em Avaré às 01:30 com 9 graus. É mole?


Tiritando de frio por longas 3 horas esperando pelo ônibus que me levaria a Avaré

No dia seguinte embarquei para Jaú e de lá para casa.


quinta-feira, 23 de junho de 2016

Por que viajar? Por que não viajar?

Para quem não conhece minha história como cicloviajante uma explicação.

Comecei a viajar em bicicleta em setembro de 2013, como busca de algo para modificar minha vida que se estagnou e me fez regredir, em muitos aspectos, após 20 anos de depressão profunda.

Na primeira viagem pedalei 1.340 kms, pelo estado de São Paulo. Gostei. Gostei tanto que não deu mais vontade de parar, por mim viajaria pelo mundo afora sem me preocupar com o tempo ou com a volta. Mas infelizmente meu limitador principal é o dinheiro, ou a falta dele. Assim, faço viagens esporádicas, 2 ou 3 ao ano, limitadas a uns 500, 700 kms.

Mas quem experimenta desse "vício" entenderá: é muito difícil ficar parado vendo o mundo pela TV. O corpo pede, a alma pede uma viagem...

Porém - e sempre tem um porém, como dizia Plínio Marcos, algumas características pessoais minhas são uma barreira para essas aventuras:

1. Sou um ser estritamente urbano. Com 64 anos de idade, sempre morei em cidades grandes ou médias, sem contato com o rural, com a aventura. Daí minha preferência, durante as cicloviagens, por dormir em hotéis e pousadas, o que torna essas viagens mais dependentes de dinheiro;

2. Por não ser mais jovem e pretender viver pelo menos uns 10 anos mais, sou muito precavido, medroso mesmo com relação aos perigos inerentes a esse tipo de aventura. Por isso prefiro viajar por estradas asfaltadas, por regiões mais habitadas; e

3. Esse longo período em depressão me tornou uma pessoa bastante individualista, pendente para solitário mesmo. Disso surge minha resistência a pedalar em grupos, prefiro fazê-lo sozinho, o que contraria o item 2. Por isso também não sou muito comunicativo, com dificuldades de me aproximar das pessoas pelo caminho. Um grande entrave.

Bem, essas são as regras até aqui seguidas por mim. Mas após se meter no mundo de aventureiros, a gente descobre que regras devem ser quebradas. Além disso, o ser humano está sempre em busca de ampliar seus limites, assim como um alpinista começa por um morrinho perto de sua casa e, quando vê, já está lá pelo Everest...

Eu também me encantei a ponto de pretender romper com minhas regras e estou querendo viajar para terras mais distantes, desafiantes como não encontro aqui pelo Brasil. Estou encantado com as possibilidades que a Argentina oferece, mais pela região semidesértica dos Andes que as planícies geladas da Patagônia.

Pensei em percorrer a RN 40, estrada ícone na Argentina, com extensão de 5.100 km, atravessando o país de Norte a Sul. Tal extensão e devido a natureza diversa de clima e topografia, exige bem mais recursos - financeiros e físicos - que as viagens que já fiz até agora. Daí planejei dividir a tarefa em 3 ou 4 viagens distintas, em épocas diferentes.

Finalmente, cansei de pedir dinheiro com patrocínios. Recentemente percorri algumas empresas em Brasília, sondando essa possibilidade, mas foi decepcionante, além de uma delas me receber com piadinhas idiotas a respeito. Então fica decidido que só viajarei com meu dinheiro. E dos filhos, hehe...

A primeira viagem teve um significado único, pois representou a superação de frustrações que se acumularam por 60 anos. Tenho como objetivo, agora, viagens maiores, que representem novos desafios. Talvez uma viagem à Argentina não se confirme neste ano, oxalá em março ou abril de 2017. Para não me desesperar farei algumas viagens por São Paulo mesmo, afinal tenho 6 rotas já estudadas, planejadas, desenhadas, prontas para ser posta em prática. Além de participar de um ou outro Desafio de MtB...

Esses quase 3 anos de viagens me transformaram. Não sei se exatamente para bem, ou para melhor. Uma das mudanças que sinto intensamente é a questão da solidão e individualismo. Que se solidificou. Hoje me sinto bem à vontade estando desligado de pessoas afetivamente. Quando me vi sem recursos, sem poder participar ativamente da vida social a que nos vemos obrigado no dia a dia, num primeiro momento sofri muito, me amargurei e me senti um pária, inútil para o mundo. Felizmente superei essa dor e me assumi assim. Viajar sozinho exige que você se vire só, que  interaja com estranhos sem estabelecer vínculos permanentes. Pena que demorei tanto tempo para compreender isso; se soubesse há 30, 40 anos atrás minha história teria sido bem diferente...

Obrigado pela paciência de ler tudo isso. A gente se vê.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Tordesilhas parte II: SP, Paraná e Santa Catarina

No dia seguinte, dia 9 de setembro, segui em direção a Nova Granada, 78 kms de estrada. Foi quando atravessei de Minas para São Paulo e coloquei a bandeira do "meu" estado...

Nova Granada é velha conhecida por pedal. Já passei por lá há cerca de um ano, quando conheci a turma da Equipe Catraca, com quem reuni e nos confraternizamos alegremente. Ali na Toni Bicicletaria troquei de pneus. Os que levava eram novos, mas do tipo misto, muito ruim para acostamentos idem. Com a chuva então, se tornava um risco grande de quedas. Coloquei pneus cravudos, que me garantiram mais tranquilidade pelo resto da viagem.

Segui para Monte Aprazível, onde a Priscila Fontes, Assessora de Comunicação da Prefeitura local me ajeitou hospedagem por dois dias na cidade. Estava programado um rolê com uma equipe de pedal da cidade, mas a chuva intermitente nos dois dias impediram que ela se realizasse. Um dia voltarei lá com tempo bom para desfrutar desse prazer.


É o que mais se vê por nossas estradas...


A turma da Equipe Catraca...
O André e o Toni, da Bicicletaria
A turma reunida para uma confraternização merecida
De Monte Aprazível fui para Buritama, repisando o caminho feito no ano passado: Nipoã, Planalto e Zacarias ficavam no caminho e foram vencidas rapidamente. Em Buritama, a alegria de reencontrar amigos. Mas também foi uma passagem rápida.  Enquanto estava lá, de Araçatuba o amigo Marcos Lavor, a quem conhecera em outra viagem anterior, me contacta convidando para visitá-lo em sua nova casa, pois havia se mudado de Presidente Prudente há pouco tempo.

Para lá me dirigi, alterando um pouco a rota, que mais à frente seria alterada outra vez, reduzindo a quilometragem: ao invés de ir para Bauru, Avaré e Itararé, fui para Lins e dali pela BR-153 direto para Ourinhos, já na divisa com o Paraná.

No km 480 da Rodovia Marechal Rondon, completei a marca dos 1.000 km da viagem
Ipiguá
Mirassolândia. A chuva forte na cidade impediu fotos. O cemitério ficava pouco à frente
Monte Aprazível bem ali. desci os últimos 3 km empurrando porque fiquei sem freio. A chuva derreteu as sapatas...
Igreja Matriz em Monte Aprazível. Raro momento sem chuva nos 2 dias que fiquei na cidade


Em Zacarias essa turma fez questão de se fotografar...
Buritama é do outro lado da ponte


Antiga estação ferroviária de Araçatuba, hoje terminal rodoviário





Pausa para um caldo de cana. Essa turma me lembrou que logo à frente teria uma serra...

Ah, se não fosse o caldo de cana
Em Marília ganhei  uma revisão pela Ciclomar...

Marília. Nos anos 60 era aqui que em pegava o trem para a capital e outras cidades do estado




A serra lá de trás, na chegada, foi café pequeno. Duro foi esta, depois de Marília, seguindo para Ourinhos

Finalmente o Rio Paranapanema, divisa com Paraná
Depois de Monte Aprazível, passei muito rapidamente pelas demais cidades paulistas, exceto Araçatuba e Ourinhos, onde fiquei 3 dias em cada.

No Paraná tudo se transforma

...principalmente a topografia. Até então, minha média de rodagem vinha sendo de 90 a 100 km por dia. Não imaginava que iria reduzir, forçosamente, para 50 a 60. Muitas subidas intensas, meu calcanhar de Aquiles. Mas totalmente compensado pela beleza da paisagem, sempre com visual bonito, bem diferente do que estou acostumado aqui no Goiás. Não me canso de confessar-me encantado com aquele relevo, que se estende a Santa Catarina, mais pronunciado ainda.

Eu já tinha conhecimento da peculiaridade dos sulistas em falarem muito no diminutivo, se referirem  aos objetos dessa maneira. Em Formosa-GO, onde passava temporadas intermitentes nos últimos 25 anos, vivem muitos gaúchos e paranaenses. E era "gauchinho" pra cá, "carretinha" pra lá... Mas não escondo meu espanto quando, logo no primeiro restaurante de beira de estrada que parei, perto de Jacarezinho-PR, enquanto comia meu lanche, um atendente se aproxima, olha lá pra fora e me pergunta: "-É o senhor que está viajando naquela bicicletinha?..." Bicicletinha... não gostei, estranhei mesmo. Mas de pronto me situei e me prometi ajustar dali pra frente.

A primeira cidade de pernoite foi Santo Antonio da Platina, bem simpática e maior do que eu imaginava. Fiquei surpreso em descobrir ali uma empresa (JK Artes Gráficas) apta para a confecção de chaveiros em acrílico, com corte a laser. Os que levava se acabaram e eu precisava fazer mais, para vender pelo caminho (ou distribuir gratuitamente). Fica aí a propaganda gratuita, hehe...

Primeiros metros em solo paranaense


Sempre encontro com minha protetora pelas cidades...
Aqui, perto de Joaquim Távora, sob sol de 40 graus, fogo à beira da estrada para ajudar...

Encontrei com o goiano Ricardo que vinha da Argentina
Siqueira Campos. Uma foto e segui viagem


Wenceslau Braz, onde a área da antiga estação ferroviária virou área de lazer
Arapoti: na mesma sorveteria em que passei em viagem de carro no início do ano
Alguns trechos eu pegava um atalho de terra por não ter acostamento mínimo na estrada


Chegando a Jagariaíva



Perto de Piraí do Sul começa a chover novamente
A entrada de Castro é um pequeno caos...




No dia seguinte da chegada em Castro participei de um Passei Ciclístico.

...e fui conhecer a Castrolanda, colônia holandesa no município. Outro mundo...
No caminho para Ponta Grossa esse cara me viu, reconheceu e parou o carro para uma foto. Depois conto quem é...

Ponta Grossa na chegada. Com chuva
Ponta Grossa na saída. Com sol.




Vila Velha. Um antigo desejo realizado. Só que eu nunca imaginara que seria em bicicleta...

Estrada secundária para Palmeira. 20 km de puro relax, pois quase não tinha tráfego.
O Marivaldo, que me encontrou na estrada, tinha feito o Caminho da Fé, pedalando desde Palmeira até Aparecida. A gente se conhecia do Facebook...

Igreja em Porto Amazonas...

Porto Amazonas




Lapa é uma cidade muito antiga. Bem preservada, felizmente. Tem muita história.





Em terras paranaenses ainda passei por Joaquim Távora (onde conheci casualmente uma dupla de cantores sertanejos de Sto Antonio da Platina), Siqueira Campos, Wenceslau Braz, Arapoti, Jaguariaíva, Piraí do Sul, Castro, Ponta Grossa, Palmeira, Porto Amazonas, Lapa, Campo do Tenente e Rio Negro, a última cidade, separada de Mafra, já em Santa Catarina, apenas pelo Rio Negro. As 2 cidades são quase como uma.

Foram 540 km em terras paranaenses, do Rio Paranapanema ao Rio Negro. Todo o tempo subindo e descendo, mais subindo... Muitos trechos de estrada com pista simples, às vezes sem acostamento o que me obrigava a malabarismos incríveis para não ser levado pelas carretas, que pareciam ter saídas todas no mesmo dia...

Um parêntesis necessário: a maioria dos ciclistas e pessoas interessadas tem uma ideia muito errada sobre os caminhoneiros em relação a ciclistas. Nos 9 a 10 mil kms que já pedalei por estradas de todos os tipos, só me senti um pouco ameaçado em meia dúzia de ocasiões, e nessas, sempre foi por força da estrada estreita, nunca por "intenção assassina". Caminhões representam muito perigo dentro das cidades. Mas aí são todos os veículos automotores. Poucas cidades por onde passei demonstram respeito ao ciclista, propiciando segurança. Daí eu evitar, sempre que possível, entrar em cidades grandes, com trânsito mais selvagem, geralmente.

fotos

Das cidades paranaenses, as que mais me agradaram foram Wenceslau Braz, Castro, Palmeira e Lapa. Talvez porque foram as em que mais tempo passei e explorei, conhecendo melhor. São tantos lugares para se conhecer, a partir da informação dos locais, que pretendo voltar futuramente, talvez de carro, talvez de bike mesmo... até porque pretendo completar a rota, indo até Laguna dentro de pouco tempo.

No Paraná merece destaque absoluto o Parque Estadual de Vila Velha. Desde criança eu conheço por fotografias aquelas formações rochosas famosas, especialmente a Taça, uma ícone nacional. Quando estudava a rota, poucos dias antes de sair de Brasília, me toquei de que passaria tão perto do mesmo (30 km de Ponta Grossa) que resolvi então que iria visitá-lo e ter uma foto junto à Taça... pena que não é permitido chegar até a trilha com a bicicleta, os passeios são guiados, a gente vai de van até o local, uma pena. Mas resolvi essa pendência de mais de maio século comigo mesmo...

Fazendo esse desvio, de quebra ganhei um atalho (de Ponta Grossa para Palmeira) por uma estrada secundária, bem secundária mesmo, que atende pequenas comunidades agrícolas, sendo a principal a do Quero-Quero, que dá o nome à estrada. Passa por uma rio com pequenas cascatas e de visual fantástico. No caminho tive que passar em meio a uma boiada que vinha sendo tocada por um rapaz... nem foto tenho, pois meu nervosismo era muito grande, como é que ia me lembrar de fotos, hehe...

As cidades de Jaguariaíva, Piraí do Sul, Castro, Ponta Grossa, Palmeira, Campo do Tenente, Porto Amazonas, Lapa, Rio Negro e Mafra-SC fazem parte da antiga rota dos Tropeiros dos Muares, que no século 18 era utilizada pelos comerciantes de mulas, vindas da Argentina com destino a Sorocaba-SP, local de comercialização dos animais que eram os "caminhões" que carregavam o ouro e mercadorias outras pelo Brasil, desde Minas até o porto de Paraty. Que pretendo um dia fazer de bicicleta. Alguém topa?


Passando por Mafra, onde fiz  amigos no Colégio Mafrense..
Rio Negrinho. Aqui entreguei os pontos. Pior que mina amiga Lenice não estava na cidade para me dar uma ajuda...
O Sandro foi me resgatar em Rio Negrinho. Fui de carona para São Bento do Sul



São Bento do Sul é uma cidade linda. Mas totalmente inadequada a ciclista: um morro atrás (ou cima) de outro...
Minha amiga Aurea, fundamental em apoio durante os 3 dias em que me recuperei em sua casa.


São Bento do Sul em plena 5 da tarde...




Depois de São Bento do Sul desci uma serra de 800 m de desnível. Com chuva todo o tempo.

Depois de Corupá, cheguei a Jaraguá do Sul, partindo no dia seguinte para Blumenau, via Pomerode.
Pomerode. Tenho predileção especial por essa cidade, só não sei explicar porque.

Entrei em Santa Catarina por Mafra. Curioso: nessa cidade fui contactado pelo Amarildo Chaves, acionado pelo irmão que mora em Araguari, o Aldamir Chaves a quem conheci casualente quando passei por lá. Estava saindo do hotel com destino a Uberlândia e ele passou pelo hotel naquela hora, em que fazia uma caminhada matutina... o mundo dando voltas.

Saindo de Mafra para São Bento do Sul, passando por Rio Negrinho, uma péssima surpresa: sentia-me muito cansado, esgotado mesmo, propenso a desistir ali mesmo. Esse estado de ânimo me fez empurrar a bicicleta em qualquer subidinha que aparecia. Cheguei esgotado em Rio Negrinho, a 45 km de distância. Faltavam apenas uns 20 para São Bento do Sul, o destino final do dia. Não aguentei. Tive que apelar para a amiga Aurea, que por sua vez acionou o Sandro, que foi me buscar de carro no local.

Não preciso dizer que o ânimo simplesmente desaparecera. Todo esse trânsito foi feito debaixo de chuva e com bastante frio. Graças ao apoio ímpar da Aurea, fiquei 3 dias na cidade para me recuperar. Foi um descanso realmente compensador. Vinha de 35 dias pedalando quase sem parar, já contabilizada 1.800 kms percorridos. Descuidei muito da alimentação, todo o tempo - um erro gravíssimo a quem se aventura numa viagem dessas. Todos esses fatores se somaram à questão financeira (meu dinhero havia acabado) e me levaram a um estresse sem tamanho, uma estafa total. As previsões de tempo indicavam mais chuvas para a região. Previa-se fortes tormentas no sul do estado, na região de Laguna, para onde me dirigia e isso me deixou bastante apreensivo.

Segui para Jaraguá do Sul, descendo uma serra deliciosa (apesar da chuva, frio e grande movimento de carretas, com vários trechos sem acostamento) com desnível de quase 800 m. Quase-felicidade...

Passei por Corupá, direto, nem entrei na cidade. Com chuva é quase impossível fotografar (não tenho equipamento de primeira linha) e isso tira um pouco o gosto da viagem, ao menos para mim. Cheguei em Jaraguá do Sul bem tarde, já quase anoitecendo, devido ao tempo fechado. Gostei bastante da cidade, esperava menos dela.

No dia seguinte, terça-feira, 6 de outubro, saí com destino a Blumenau. Viagem tensa, atravessando uma serra curta - 5 kms no total, mas com subida muito íngrime, estreita, sem acostamento e sob chuva. Só faltava encontrar o Fred Kruger numa curva daquelas... felizmente encontrei foi uma capela quase no topo da serra, dedicada a N. S. de Lourdes, onde descansei um pouco e fiz uma prece em agradecimento...

Blumenau

Em Blumenau, como ia ficar em casa de parentes, não me preocupei muito em chegar cedo. Foi tanta despreocupação que errei o caminho, passando direto em um trevo onde deveria seguir para a esquerda. Felizmente já conhecia a cidade anteriormente e logo, uns 3 km adiante percebi o erro e retornei. Sob chuva.

Os cerca de 7 kms entre esse trevo e meu destino foi muito tenso devido ao grande movimento de veículos de todo tipo, incluindo aí ônibus urbanos. Trânsito urbano, como já citei antes, vejo como perigo muito maior que as 2 serras que enfrentara nos dias anteriores...


Para minha alegria, ou consolo, cheguei no dia de abertura da Oktoberfest. 
1.924 kms pedalados. (O contador só vai até 999). Ficou de bom tamanho...

Com o clima louco, insistindo em manter a chuva e previsões de dias mais chuvosos ainda, decidi ali interromper a viagem. Voltei de ônibus. Tão logo surjam as condições favoráveis, irei concluir esse trecho de pouco menos de 300 km. Os que acompanharem verão.

Obrigado pela leitura.